Algodoal vem de algodão, é uma ilha e tem lugar geograficamente marcado no Google maps. Antes de ser reconhecida pelo algodão a chamavam Mãe da Terra e depois de conhecê-la foi fácil entender essa coisa da pluralidade dos tempos históricos porque Maiandeua tem tempos só dela: tempo de luz da lua, de água do poço e carimbó.
Nesses tempos que escorrem macios pelas bandas de lá existe uma pedra-baleia e uma árvore que estapeia cabeças desavisadas. E existe também a lenda de um reino que fica alojado bem debaixo da ilha, lugar povoado por D. Sebastião, rei da Dinastia de Avis, que desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir no Marrocos dando início a uma crise de sucessão que fez Portugal ser governado por espanhóis. Um corpo que diziam ser do rei foi removido para Belém, mas ninguém aceitava o fato de que O Desejado – como também era conhecido – estivesse morto.
Aqui vale um parágrafo-explicação a todos que se perguntarão sobre porque mandariam o corpo do rei português para Belém e não para Lisboa e, bem, a coisa toda da circulação de bens e informações era muito diferente no séc. XVI: a revolução em voga era marítima e não internética e as rotas que ligavam a Europa ao norte da África eram longas e Belém – como parte da colônia-Brasil – servia de entreposto na rota Portugal-África e a batalha de Alcácer-Quibir visava controlar o avanço dos mouros sobre os territórios dominados pelo comércio português.
Na humilhação de serem governados por estrangeiros e de perderem seu rei-guerreiro em batalha, os portugueses tornaram-se devotos do sebastianismo - que era um messianismo sem Padre Cícero - a espera de um rei maroto que sumiu apenas para recuperar as forças e poder voltar triunfante para reclamar seu trono e seu reino de volta. Sem explicações maiores a respeito da transmutação que fez o corpo morto desaparecer da capital do Grão-Pará e Maranhão, salvo a história contada por um professor e devidamente esquecida por mim, o que sobra é aquele velho começo de frase que diz que “um dia” os pescadores de Algodoal começaram a estranhar o vigoroso barulho de festa e falatório que vinha da praia quase todas as noites. Curiosamente procuraram saber do que se tratava e não menos curiosamente foram surpreendidos por uma carroça que corria galopante e cujo motorista era ninguém menos que Sabá, o rei. Daí por diante talvez não seja tão fácil dar de cara com Sebastião e sua carroça, mas na dúvida, reverencie!
E é por essas e outras que a ilha não pode morrer, porque ainda que a natureza fosse coisa esdrúxula e irrelevante para a nossa sobrevivência, com ela desaparecerão vários reinos: o da mãe terra, o do rei sabá e o da comunidade de pescadores que inventaram Algodoal do jeito que ela é.
Showing posts with label desabafo. Show all posts
Showing posts with label desabafo. Show all posts
inocência
depois de tanto tempo nesse mundo eu ainda acredito que a conexão entre as pessoas pode ser uma coisa simples que nem mandar um email e receber uma resposta.
e eu sempre escrevo com a melhor das intenções.
ainda bem que consegui refrear o impulso há dois minutos.
senão há um minuto somaria-se mais um ponto na escala de pessoas que me acham estranha sem me conhecer.
mas eu só queria conversar, entende?
(nenhum email na sua caixa de entrada)
e eu sempre escrevo com a melhor das intenções.
ainda bem que consegui refrear o impulso há dois minutos.
senão há um minuto somaria-se mais um ponto na escala de pessoas que me acham estranha sem me conhecer.
mas eu só queria conversar, entende?
(nenhum email na sua caixa de entrada)
Subscribe to:
Posts (Atom)
